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Dr. Carecaquarta, 27 de agosto de 2008

There and Back Again (Lá e de Volta Outra Vez)

O depoimento de um RPGista veterano

A grande vantagem de começar uma revista nova, uma missão diferente, é chamar a atenção de mais pessoas para o que você faz. No caso de uma revista de RPG (Role Playing Game), é possível ir ainda mais além do que isso. Não se trata de chamar a atenção só para o meu trabalho, mas sim para o de muita gente que está no ramo há algum tempo, fazendo trabalhos tão bons quanto a galera que começou tudo isso há mais de 30 anos nas terras distantes (e hoje em dia não tão populares) dos Estados Unidos da América.

Para mim, em particular, é também uma grande oportunidade de resgatar todo o entusiasmo e fascinação que preencheram meus primeiros anos de jogo. Exatamente por isso escolhi, nesta coluna de estréia, dar muito mais um testemunho do que lotar este espaço com dicas de mestre (trocadilho não intencional, caso vocês sejam inocentes o suficiente para acreditar nisso) ou críticas ao mercado nacional.

Pense neste humilde (cof, cof) e careca colunista à beira dos 30 anos como um daqueles caras que vão nas reuniões dos Alcoólicos Anônimos contar como é maravilhosa a vida sem bebidas e sem vício, na intenção de que os novatos desencorajados possam largar o hábito que ele teve um dia. A diferença é que meu papel aqui é exatamente o contrário: se você nunca jogou, espero que se interesse o suficiente para procurar um grupo e começar logo. Se jogou e parou, espero sinceramente que volte.

Não sei por que diabos, sempre tive fascínio por cavaleiros, dragões, fadas e esse tipo de coisa fantástica.

Mesmo assim, era difícil ter contato com isso no início da década de 90. Se hoje meio mundo tem os DVDs da trilogia de O Senhor dos Anéis na prateleira e pode assistir quantas vezes quiser, naquela época a única versão que tínhamos da obra de J.R.R. Tolkien (que, pra quem não sabe, foi o cara que inventou tudo aquilo ainda na época da Segunda Guerra) era traduzida para o portugês de Portugal que, digamos, não era assim tão agradável de se ler (”- Não se assuste! - disse Passo de Gigante - Revelar-lhe-ei o que sei e dar-lhe-ei alguns bons conselhos, mas quererei uma recompensa!”). O restante existia só na língua inglesa mesmo e a maioria dos garotos nem sabia que eles existiam.

Lembro que meu primeiro contato com o RPG foi uma ilustração do antigo Advanced Dungeons & Dragons publicada no jornal Folha de São Paulo: um grupo de aventureiros medievais segurando orgulhoso um pequeno dragão amarrado como se fosse um troféu. Confesso que não me lembro exatamente o que era dito sobre o jogo na matéria. E acho que na época isso nem importou. O que me interessava era imaginar quem eram aqueles personagens, como eles haviam matado o tal dragão (na verdade, um dragonete) e que aventuras viveriam depois de receber a recompensa pela presa capturada. O mais importante é que, participando do jogo, eu poderia fazer parte de tudo aquilo também. Eu podia ser o cara que matou o dragão!

E, semanas depois, minha vontade de conhecer aquele mundo fantástico foi finalmente satisfeita. Por um daqueles acasos do destino que ninguém sabe explicar, descobri uma recém aberta loja especializada em livros de RPG, chamada Forbidden Planet, ao lado do lugar onde fazia aulas de história em quadrinhos. Eram mesas para todos os lados, pessoas rolando dados, brandindo espadas imaginárias e evocando poderes místicos inexistentes. Um universo de livros repletos de orcs, goblins, elfos, anões e donzelas em perigo. Reinos subterrâneos, tesouros e dragões capazes de destruir vilas inteiras com apenas uma baforada flamejante.

Orientado por um atendente da loja, adquiri logo de cara um dos saudosos livros-jogo, uma espécie de introdução ao RPG onde você podia, acompanhado somente de um simples dado de seis faces, determinar o destino de um herói perdido em um perigoso labirinto em busca do tesouro de algum inimigo terrível e maléfico. Eram só paginas recheadas de textos numerados escritos de maneira extremamente simplista, é verdade. Mas, para a imaginação de um garoto de 15 anos sedento por aventura, era mais do que suficiente.

Desnecessário dizer que fui fisgado imediatamente.

A partir daí foram mais de sete anos de jogos ininterruptos. E não foram poucas as aventuras e personagens memoráveis. Como esquecer de Skipp Greenwood, meu primeiro personagem, e de sua companheira Lianna Katalli (interpretada com entusiasmo por meu amigo mais antigo, Humberto Villela) vagando pelas profundezas mortíferas de Undermountain? Ou do desmiolado, mas heróico, Thrish, o único kender a desbravar os domínios amaldiçoados de Ravenloft e voltar ao seu mundo natal? E como não sorrir ao lembrar de meu amigo Rafael interpretando um gnomo que tinha por objetivo de vida fazer parte de uma ordem de cavaleiros destinada apenas a humanos e que acreditava que seu cão vira-lata, Shiny Warrior, era na verdade uma “personificação da deusa da cura”? Como esquecer de todas as vezes em que livramos os Reinos Esquecidos das garras do deus Cyric e seus fanáticos seguidores?

Jogar RPG é manter viva a fantasia e a ilusão que existe dentro de cada um.

É um passatempo divertido e inteligente que te coloca em contato com outras culturas (reais ou imaginárias) e novas pessoas.

Foram bons tempos de madrugadas inteiras desbravando terrenos inexplorados, acumulando tesouros, bebendo refrigerante e comendo salgadinhos das mais suspeitas procedências, mas o RPG me trouxe muito mais do que isso.

Para poder jogar o sistema de regras que eu mais gostava (AD&D, hoje D20), me vi obrigado a aprender inglês sozinho, sem a ajuda de escolas especializadas (uma vez que estudava em período integral). Com as técnicas de criação de personagem que aprendi jogando, pude aprimorar ainda mais meu talento como roteirista e contista. Também tive contato com dezenas de pessoas e meus amigos mais antigos são os mesmo que fizeram parte daquele meu primeiro grupo de jogo na saudosa Forbidden Planet.

Como se não bastasse, tive a oportunidade de transformar meu passatempo no trabalho pelo qual sou reconhecido já há dez anos. E, graças aos deuses do Panteão, não fui o único. Minha história é muito parecida com a de centenas de jogadores e Mestres espalhados pelo Brasil.

Se você é um herói veterano que se aposentou, desiludido com as dificuldades da vida adulta, passe um pano em sua espada empoeirada, coloque sua velha armadura, dê um beijo na esposa e saia.

Em alguns instantes, você vai se lembrar de como era doce o sabor da batalha e fresco o vento das estradas inexploradas.

Se você acabou de se iniciar, essa é sua chance! Esgueire-se de casa sem que ninguém veja, pegue seu cavalo e parta coberto pelo manto estrelado da noite sonhando com fama, dinheiro, mulheres e atos heróicos.

Existe sempre uma aventura à sua espera. Aqui estamos começando uma. E tenho certeza de que nenhum de vocês vai querer ficar de fora…

J.M.Trevisan
(Dragonslayer membro da Ordem da Careca Reluzente)