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Moreaniaquarta, 27 de agosto de 2008

Reinos de Moreania

Os humanos foram extintos. E os animais foram feitos humanos.

Os pés descalços não se feriam durante o passeio pela floresta densa. Nem mesmo ficavam sujos. A natureza, gentil, abria caminho para sua visitante e criadora, afastando espinhos e detritos. Galhos e folhagens curvavam-se à sua passagem. Flores pequenas e delicadas nasciam em suas pegadas, formando uma trilha de minúsculos jardins. O solo agradecia cada toque daquela entidade sagrada.

A Dama Altiva sorria. Após tanto sofrimento, tanta dor, aquela terra ainda preservava sua bondade. O mal humano não havia sido capaz de corromper sua boa alma.

Sentou-se em uma clareira, sobre um tapete de flores nascidas apenas para acomodá-la. As copas das árvores deixaram passar raios de sol, folhas e pétalas caíram em uma chuva macia. Pássaros, borboletas e outros pequenos seres vieram observá-la, maravilhados. Foram logo seguidos por doze animais.

Havia um búfalo. Um leão. Um coelho. Um morcego. Um urso. Um crocodilo. Uma raposa. Uma serpente. Uma coruja. Uma hiena. Um gato. E um lobo. Todos esquecidos de sua inimizade natural, deslumbrados com a visita ilustre de sua rainha.

Veio um novo sorriso, emoldurado por cabelos verdes e brilhantes.

- Os tempos de medo e morte acabaram. Os últimos humanos acabaram. Não haverá mais matança, não haverá mais paredes de pedra ou armas de aço. Haverá apenas a vida. Haverá apenas vocês. As cores, cheiros e gestos da Dama Altiva eram a pura linguagem da natureza. Dispensavam palavras. Palavras. Uma invenção fútil, arrogante, daqueles que sentem a necessidade de dar nomes a todas as coisas.

- Sejam felizes, minhas crianças. Vivam como sempre viveram. Mas havia algo errado. Os doze animais pareciam inquietos, aprisionados de alguma forma. Eles queriam expressar algo que não existia na forma de gestos, cores, cheiros e sons simples. Ainda que contrariada, a Dama despertou os doze animais.

- Não queremos, Mãe - disse a raposa, que primeiro aprendeu a dominar o novo dom. - Não queremos viver como sempre vivemos.

- Não queremos mais fugir - apoiou a serpente. - Não queremos ser caçados, aprisionados e mortos. Uma ruga de aflição nasceu na fronte da Dama das Flores.

- Não acontecerá de novo - ela disse. - O povo humano está extinto. Suas torres estão vazias. Suas armas serão devoradas pelo tempo, reduzidas a pó. Vocês estão salvos.

- Há outros de onde vieram aqueles - rosnou o lobo. - Seu cheiro está nas coisas trazidas pelo mar. Eles voltarão.

- Queremos o poder de nos defender - urrou o crocodilo. - Queremos o poder de matar os humanos.

Uma onda de dor atravessou o rosto da Dama. O verde brilhante em seus cabelos cedeu lugar à palidez das folhas secas. Os animais lamentaram causar tanto sofrimento à sua rainha.

- Não estará sempre conosco, Mãe - argumentou o morcego.

- Não poderá nos proteger sempre. Queremos ser capazes de fazê-lo.

- Se vocês querem matar e destruir - murmurou a Dama, entre lágrimas -, não é a mim que devem recorrer.

E levou um olhar temeroso para um canto escuro da mata. Um lugar cada vez mais escuro, cada vez mais sinistro, onde brilhavam múltiplos olhos e um rosnado profundo ressoava. Ela sabia, seu irmão mais velho estava ali observando. Esperando. Talvez já prevendo o que viria.

O leão, o morcego, o crocodilo, a serpente, a hiena e o lobo lançaram aos demais um último olhar de despedida, e seguiram na direção da escuridão.

- Não queremos ser monstros - disse o gato, em nome dos seis animais restantes. Mas queremos as mãos que fazem e empunham armas. Queremos as vozes que invocam magia. Queremos a mente que cria, inventa e dá nomes.

Em outro lugar, os animais que seguiram o irmão violento da Dama faziam os mesmos pedidos.

Nem a Dama Altiva, nem o Indomável ficaram satisfeitos com os desejos. A Rainha e o Rei das Feras eram opostos em quase tudo. Ela amava a vida, ele queria a matança. Ela criava harmonia, ele a destruição. Ela perdoava e suportava, ele caçava e matava.

Mas eram irmãos. Como fazem todos os irmãos mais velhos, o Indomável era severo e cruel com a Dama - mas também um protetor enciumado, feroz. A Dama da Floresta perdoaria os assim chamados “povos civilizados” que atacavam suas crianças. O Rei-Monstro preferia devorá-los.

Agora, os doze animais pediam para ser civilizados. Ser humanos. A Dama, que também era Allihanna, chorou. O Indomável, que também era Megalokk, urrou. Suas crias haviam sido corrompidas para sempre. Haviam sido roubadas de sua pureza selvagem. Mesmo assim, seu desejo foi atendido. E o povo de Moreania nasceu.

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