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Yrtovquarta, 27 de agosto de 2008

História de Vax

A Guerra e o Cataclismo

Na região de Vax, existe uma área central tomada pelo selvagem poder da tempestade. Uma barreira de nuvens negras, chuva forte, granizos pesados e raios fulminantes impede o acesso marítimo e aéreo a essa zona nomeada de “Círculo dos Trovões”. Fora essas interpéries geofísicas, nota-se claramente que desse ponto caótico um grande poder sobrenatural emana. O que pode ser dito, sem nenhuma certeza, é que todo esse caos e poder elemental baseiam-se na lenda da Tempestade e dos Leviatãs. Tal história é fundamentada em antigos documentos sagrados reescritos, recontados e, por conseguinte, distorcidos inúmeras vezes. Provavelmente, a lenda de hoje é uma história romanceada e incompleta, mas, ainda assim, todos que habitam o continente a conhecem.

Sabe-se que, há muito tempo, todas as ilhas e formações de Vax não existiam como conhecemos, faziam parte de um grande aglomerado. Nesta vasta porção de terra, o clima, as estações do ano e as insolações desenvolviam-se normalmente, sem os longos períodos de dia e noite e o inverno rigoroso que estamos acostumados. Claro que o continente tinha sua parte mais fria, mas também abrigava florestas tropicais e cadeias montanhosas com vales verdejantes, montando assim suas características de maneira lógica e natural. A manhã e a noite dividiam o dia igualitariamente, eram 12 horas de luz, em que o trabalho das raças inteligentes fazia prosperar a sociedade, e mais 12 horas de escuridão que abrandavam o calor do sol e convidavam todos para um sono tranqüilo até o despertar. A vida fluía saudável e rotineira em Vax, cada raça aproveitava ao seu modo as riquezas daquela terra. Os conflitos existiam, porém nenhuma celeuma tinha força suficiente para alterar a ordem e o cotidiano.

Mas, como é de nossa compreensão, o futuro de Vax seria bem diferente do que o prólogo descrito pelos pergaminhos ancestrais. A tempestade veio, o dia e a noite se tornaram temporadas opressivas e extenuantes, o clima ficou extre­mamente definido, impondo de forma mais consistente seu rigor, alterando as verdes matas tropicais para vegetações pardas de coníferas. Mas a grande dúvida que as escrituras tentam sanar é: como foi que esta terrível transição ocorreu?

Segundo a antiga lenda transcrita para a linguagem atual, o grande responsável pela desgraça de Vax foi um grupo de fanáticos religiosos ávidos por conquistar um poder fora dos limites. Eles se auto-intitulavam “Derivadores da Tempestade” e também eram conhecidos como “azuis”. Esse grupo cultuava importantes Deuses do panteão de Yrtov, eram devotos das forças elementais: Kaudoss, Vulsuu, Flamarin e Grotanjia. Para personalizar a devoção e sacrifício, rituais poderosíssimos eram realizados, os fanáticos ofertavam o corpo e a alma a uma força que achavam ser a personificação máxima da união dos elementos: a tempestade.

A tempestade representava a água com suas gotas de chuva, o ar com a fúria dos tufões, o fogo com os raios fulminantes e a terra como berço de sua potência. Mas a simples adoração a tempestade não era suficiente, pois seus cultos não poderiam se resumir a encontros ocasionais entre uma precipitação e outra. Então, por intermédio de rituais nunca descritos, os Derivadores criaram uma área permanente de tempestade e alteraram seu corpo físico, dando vida a uma nova espécie que fosse capaz de suportar essas turbulentas condições atmosféricas. Esta metamorfose é uma incógnita que intriga todos os historiadores, o único fato conhecido é que um líder, conhecido como patriarca, tem o poder e permissão para conduzir o ritual de transformação.

Embora os dados não sejam precisos e confiáveis, os registros antigos contam que os Derivadores possuíam a pele cianótica, como a de um afogado, e diversas camadas pétreas pelo corpo. Diz-se também que necessitavam de água pluvial para manter seus corpos hidratados. A relação desta raça com a tempestade acontecia de maneira extremamente próxima e peculiar, há indícios de que alguns desta espécie controlava a habilidade de voar junto aos ventos dos tufões e utilizar raios como armas em combate. As informações das capacidades e habilidades especiais dos Derivadores ficaram gravadas em registros militares datados de centenas de anos, sendo que todos estes fatos remetem à época da guerra dos Leviatãs.

A consolidação do grupo fanático dos Derivadores, junto à sua devoção e sacrifícios exacerbados, despertou a simpatia dos Deuses elementais. Muitos desconfiam que as próprias deidades foram as responsáveis por dar poder ao patriarca e permitir que este primogênito conduzisse as transformações. Os Deuses desciam à Terra utilizando as figuras dos Leviatãs, que eram criaturas descomunais e de imensa força. Diz-se que os Derivadores teriam pedido ajuda a essas entidades para criar o Círculo dos Trovões e começar a história de um novo povo, uma raça perfeita sempre em comunhão com os poderes elementais. É fácil perceber que este pedido fora acatado e que a época dos azuis estaria apenas começando.

A partir deste momento agraciado para os azuis, um conflito generalizado nasceu. Como dito antes, não só o fanatismo era exagerado dentro deste grupo religioso, a ambição por poder e pela proximidade divina os tornava mais e mais obliterados. Então, uma comitiva de azuis veteranos foi visitar novamente os quatro Leviatãs, do ar, da água, do fogo e da terra, e por essas criaturas foram mais uma vez abençoados e presenteados com um milagre. O desejo do grupo de Derivadores era comum: transformar toda a região de Vax em uma área de tempestade incessante, assim todos os habitantes poderiam se transformar em azuis para conseguir suportar as novas condições climáticas e compartilhar deste estado de graça plena. Este desejo não foi proferido com intuito mesquinho ou vil, mas a cegueira dos Derivadores por sua crença os tornavam unilaterais, eles não compeendiam que poderia existir uma vontade adversa à transformação de Vax em uma zona instável e nebulosa. Contudo, a filosofia dos azuis era condicional, eles tinham convicção de que, se a tempestade viesse de forma definitiva, a comunhão com os Deuses elementais seria total, pois sempre estariam em contato com suas manifestações naturais. Os Deuses atenderam ao pedido dos azuis, pois enxergaram tal apelo como algo puro e de total entrega a um ideal divino.

Os Leviatãs transformaram-se em energia concentrada e moveram-se para a porção central de Vax, onde a área de tempestade já existente conjurada pelos Derivadores começou a se expandir. Quando a Tempestade se alastrou e passou a invadir domínios de outras raças e povos, a cisão foi inevitável. Os azuis, totalmente aptos ao ambiente, eram muitos superiores a qualquer tentativa de resistência e faziam valer sua vontade batizando todos os habitantes através da transformação. Esta metamorfose era sintetizada em um ritual conduzido pelo patriarca dos Derivadores. Todos os traços humanos, élficos ou de qualquer outra raça eram substituídos pelas características dos azuis. Após a mudança física, a mente dos batizados começava a funcionar de maneira diferenciada, a personalidade, vontade própria e livre arbítrio davam lugar a uma consciência única que agia em harmonia. Os Derivadores representavam um ser único que crescia mais e mais e eram sempre comandados pela palavra de ordem do patriarca.

Os povos periféricos ao Círculo dos Trovões entraram em desespero, pois o raio de abrangência dos Derivadores aumentava a cada dia e não havia força capaz de impedí-los de progredir. O futuro mostrava-se claro: a redenção dos azuis e a transformação seriam inevitáveis. Mas deste desespero surgiu uma comitiva de guerreiros, formada somente por paladinos de Aluskarin que uniram forças para combater os Derivadores. No entanto, depois de muitas batalhas perdidas e orações ao Deus sol, descobriram que o real poder dos fanáticos provinha do apoio dos Leviatãs elementais: a tempestade crescia por vontade divina. Então, esta comitiva, que passou a ser nomeada de Cavaleiros do Amanhecer, decidiu combater os azuis apelando para o mesmo recurso utilizado pelo inimigo, iriam encontrar o Leviatã da luz, do mesmo modo que os Derivadores apelaram aos Leviatãs elementais.

A missão não mediu esforços para alcançar o Leviatã, pois o tempo corria e a dominação dos azuis confirmava-se metro a metro. O avatar de Aluskarin concordou em ajudar os Cavaleiros do Amanhecer, porque achava nobre e honrada a preocupação em barrar o grupo religioso dos Derivadores, que havia se tornado egoísta e opressor. Mas seu poder era muito inferior à comunhão dos poderes de quatro Leviatãs elementais e pediu aos Cavaleiros do Amanhecer que procurassem auxílio de outro Leviatã para uma união de forças. Avisou para que olhassem a sua antítese como um amigo fiel; já que a água havia se misturado ao fogo e a terra ao ar, a luz poderia se mesclar com as sombras. Assim, pela primeira vez, os paladinos de Aluskarin voltaram-se para Droough como uma aliada e puseram-se a caminho para encontrar o Leviatã das sombras. A busca foi exaustiva e perigosa, muitos membros da equipe pereceram no trajeto lutando contra as criaturas das trevas, mas enfim atingiram o reduto do avatar de Droough e curvaram-se perante a Deusa em sinal de respeito. A senhora da noite surpreendeu-se com a demonstração dos seguidores de Aluskarin e, depois de ouvir seu apelo, mostrou-se receptiva para ajudar. Claro que Droough prestaria socorro para barrar a força dos elementos, pois não queria que os Deuses primogênitos invadissem territórios que pertenciam a ela. Droough, após consultar Aluskarin, veio finalmente ao auxílio dos Cavaleiros do Amanhecer. Todavia, disse que ela e Aluskarin demandariam um sacrifício aos seus seguidores tão severo quanto os azuis ofereceram de bom grado aos Deuses elementais. Desta forma, foi proposto o seguinte: “depois da batalha, se aceitarem nossa ajuda, precisarão mostrar seu ato de fé e sacrifício supremo. O dia e a noite serão o seu mundo e terão de suportá-los de modo extensivo e intenso. As horas tornar-se-ão dias a fio, esta é a provação para que a esperança renasça.”

A comitiva eufórica por vitória e totalmente devota aceitou o pacto de penitência. Os Leviatãs da escuridão e da luz desvaneceram-se, inebriando os Cavaleiros do Amanhecer com seu poder. Neste momento, uma réplica exata dos paladinos do Deus sol foi criada, os soldados já louvavam a graça de ter o exército duplicado quando os clones fundiram-se com os corpos dos seus respectivos pares. Os cavaleiros aumentaram sua estatura, passaram a medir cerca de 2,5 m e, por conseqüência, ficaram muito mais fortes, todos os valores de lealdade e conduta foram substituídos por um sentimento paradoxal até que seus âmagos equilibraram-se em neutralidade. A vontade mais premente dos novos guerreiros era buscar a paz. Pode-se notar que as réplicas não eram perfeitas, Aluskarin tinha dado vida aos novos guerreiros, mas Droough ficou responsável pela forma e modelou os clones a seu modo, que era exatamente o oposto dos paladinos. A milícia logo adotou outro título e assumiu a denominação de Guerreiros das Constelações, onde as estrelas luminescentes representavam o Deus da luz e o firmamento negro do céu escuro remetia a Droough.

A batalha que se seguiu foi o limiar daquela guerra e, vagarosamente, com a bênção de Droough e Aluskarin, os renovados Guerreiros das Constelações foram acuando os azuis até os limites iniciais do Círculo dos Trovões, controlando sua supremacia injusta. Após a contenda, Droough e Aluskarin reclamaram pelo sacrifício e, neste instante, a maior catástrofe sucedeu sobre Vax. O poder dos Leviatãs se chocou, o modo como tal episódio ocorreu é um mistério, mas as seqüelas representam a Vax de hoje. Os Deuses da luz e das trevas exilaram o continente para os confins do mundo, onde há seis meses de luz ininterrupta seguidos de seis meses de trevas absolutas. Além da perturbadora disposição das insolações, o frio reinava titânico no topo de Yrtov. Quando os alicerces da terra foram rompidos para que Vax se deslocasse, um cataclismo tomou conta de todo o continente, a terra se partiu e grandes extensões afundaram, montanhas irromperam do solo, planícies foram divididas em arquipélagos e o grande continente se estilhaçou para assumir sua compleição atual. O Círculo dos Trovões resistiu e permaneceu na parte central de Vax, o oceano transbordou para o continente partido, criando um mar em forma de anel, que deixou ainda mais difícil o acesso a esta zona de tempestades.

Muitas mortes ocorreram, ou melhor, um massacre generalizado acabou com 90% da população de Vax. Os remanescentes, extremamente assustados, tiveram que se adaptar às condições climáticas e às prolongadas insolações com muita rapidez. O período de reconstrução começou, as raças se isolaram em pontos específicos do continente partido para que sua espécie progredisse e não houvesse miscigenação. Esta medida teve que ser adotada senão uma iminente extinção se concretizaria, pois as linhagens das espécies estariam para sempre perdidas. Os elfos passaram a habitar a ilha de Loys, os halflings concentravam-se em Oll, os humanos dominavam a parte sul de Orsóvia e os anões residiam à norte nas montanhas. O novo rei dos humanos afastou-se do continente e construiu seu castelo em Karnóvia, um conjunto de ilhas a extremo norte. A leste existe Ungro, uma terra de exilados na qual as raças ainda se misturam e, finalmente, a sul encontra-se Lurgnarov, uma extensão de terra tão grande quanto Orsóvia, porém infestada de criaturas que viviam no subterrâneo de Vax e despertaram para a superfície quando o continente tremeu. Normalmente, estas criaturas não correriam o risco de sair à luz do dia ou abandonar seus reinos recônditos, mas, como as trevas cobrem Vax por seis meses, as aflições renderam-se às ambições.

Embora o Círculo dos Trovões esteja ativo, nunca mais foram registradas aparições dos azuis. Alguns falam que eles ainda vivem, mas que seus planos megalomaníacos foram reprimidos pela demonstração de poder das outras deidades. Os Guerreiros das Constelações foram quase exterminados e os últimos representantes desta ordem levantaram um bastião em Ungro em busca da solidão e do isolamento. O cataclismo divino de outrora os envergonhara, pois consideravam-se culpados por tamanha desgraça. A vida começou a tomar rumo aos poucos, as raças viveram sem conflitos mortais durante um bom tempo e as cidades prosperaram. No entanto, algo estava acontecendo em Lurgnarov, algo que faria a espécie dos orcs se levantar e marchar a pesados passos por regiões em que não era bem-vinda.