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Exploraçãosexta, 21 de novembro de 2008

O Teatro de Dante

O palco de um incêndio ou do sobrenatural?

“Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.”
“Vós que entrais, deixai toda a esperança”
- Inscrição na Porta do Inferno de A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

O Teatro de Dante é uma casa de espetáculos construída há décadas. Seu nome foi atribuído em homenagem ao clássico escritor italiano autor da obra-prima A Divina Comédia. Apesar disso, a maior curiosidade do local não é a sua idade, arquitetura ou fonte de inspiração, mas sim a macabra história que até hoje assombra seu palco.

Relatos contam que na estréia do teatro, a peça A Divina Comédia, foi escolhida para dar abertura aos espetáculos. Autoridades da época foram convidadas e a casa recebeu uma decoração especial. Cenas do céu, inferno e do purgatório foram reproduzidas em telas grandes espalhadas por todo o edifício. Na entrada principal do auditório foram cravadas as mesmas palavras da porta do inferno: “Vós que entrais, deixais toda a esperança”. A companhia de atores estava pronta; a pequena orquestra, afinada; as filas de assentos e camarotes, lotados. A encenação iria começar.

A partir deste momento, a história fica confusa e os relatos do acontecido não são muito confiáveis. O testemunho a seguir foi dado por um garoto que, no fatídico dia, de fora do edifício, observava por uma fresta na porta dos fundos a peça que não pudera pagar para assistir.

“As cortinas se abriram. Lá estavam Virgílio e o Protagonista, desolados no cenário do limbo e da escuridão. A platéia sentiu calafrios com o silêncio. Todos esperavam os primeiros acordes da orquestra para quebrar a tensão. Porém, quando o primeiro violinista deslizou seu arco, a nota emitida não foi um agudo melódico, mas um estridente cacófato que provocou uma dor lancinante nos tímpanos dos presentes. O som aterrador aumentou cada vez mais, reverberando por todo o teatro e fazendo sangrar os ouvidos de todos. Terror e paralisia tomaram conta do corpo de atores, músicos e platéia. Seus olhos fitaram o horror indizível nos derradeiros momentos de suas vidas.

Belzebu, Satã, Mephisto ou qualquer que seja o nome dado ao mal, apareceu imponente naquela hora. Do palco, uma grande cratera surgiu e, dela, o corpo de uma criatura horrenda aflorou. Sua forma incompreensível, envolta em chamas bruxuleantes que se espalharam como labaredas, consumiu tudo em volta. A catatonia do público, que esperava ver uma peça, foi um algoz inclemente, pois com seus corpos estáticos não haveria escapatória para o fogo infernal. Com a carne incinerada, os últimos momentos de consciência insana dos mortais suplicavam para que o demônio fosse apenas um efeito especial, mas a realidade trazia a dor e o desespero, caminho final para a morte de todos.”

O jovem foi encontrado balbuciando palavras sem sentido e, após um ano de internação psicológica, conseguiu escrever este relato sobrenatural. Há quem diga que o ocorrido foi apenas um incêndio comum, que se alastrou rapidamente graças às telas espalhadas pelo local.

Mas a verdade incontestável é que o Tea­tro de Dante trouxe um malogro para todo o quarteirão. Depois da tragédia, acidentes com carros, raios de tempestades, assassinatos e crimes passaram a ser recorrentes naquela área. O prédio em escombros, parcialmente destruído, nunca mais foi visitado por ninguém. Os últimos a pisar nas dependências do teatro foram os bombeiros que procuravam resgatar os corpos. Esforço em vão, pois, como constataram, todas as pessoas haviam sido carbonizadas. Estas últimas testemunhas confirmaram a presença de uma cratera no palco, talvez uma abertura feita pela explosão de uma caldeira ou reservatório de gás. Os soldados que se aventuraram a olhar para dentro do buraco sombrio não o fizeram por muito tempo, acometidos por um temor estranho.

Hoje, o Teatro de Dante é um local abandonado, tal como as quadras que o rodeiam. A casa de espetáculos é vista como mal assombrada e, para os mais céticos, como reduto de criminosos ou criaturas pestilentas. O fato é que ninguém se aproxima do local. Nem mesmo as pombas, baratas ou cães vira-latas.

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